domingo, 20 de dezembro de 2009

O Homem


Era uma tarde do fim de Novembro, já sem nenhum Outono.

A cidade erguia as suas paredes de pedras escuras. O céu estava alto, desolado, cor de frio. Os homens caminhavam empurrando-se uns aos outros nos passeios. Os carros passavam depressa.

Deviam ser quatro horas da tarde de um dia sem sol nem chuva.

Havia muita gente na rua naquele dia. Eu caminhava no passeio, depressa. A certa altura encontrei-me atrás de um homem muito pobremente vestido que levava ao colo uma criança loira, uma daquelas crianças cuja beleza quase não se pode descrever. É a beleza de uma madrugada de Verão, a beleza de uma rosa, a beleza do orvalho, unidas à incrível beleza de uma inocência humana.

Instintivamente o meu olhar ficou um momento preso na cara da criança. Mas o homem caminhava muito devagar e eu, levada pelo movimento da cidade, passei à sua frente. Mas ao passar voltei a cabeça para trás para ver mais uma vez a criança.

Foi então que vi o homem. Imediatamente parei. Era um homem extraordinariamente belo, que devia ter trinta anos e em cujo rosto estavam inscritos a miséria, o abandono, a solidão. O seu fato, que tendo perdido a cor tinha ficado verde, deixava adivinhar um corpo comido pela fome. O cabelo era castanho-claro, apartado ao meio, ligeiramente comprido. A barba por cortar há muitos dias crescia em ponta. Estreitamente esculpida pela pobreza, a cara mostrava o belo desenho dos ossos. Mas mais belos do que tudo eram os olhos, os olhos claros, luminosos de solidão e de doçura. No próprio instante em que eu o vi, o homem levantou a cabeça para o céu.

Como contar o seu gesto?

Era um céu alto, sem resposta, cor de frio. O homem levantou a cabeça no gesto de alguém que, tendo ultrapassado um limite, já nada tem para dar e se volta para fora procurando uma resposta: A sua cara escorria sofrimento. A sua expressão era simultaneamente resignação, espanto e pergunta. Caminhava lentamente, muito lentamente, do lado de dentro do passeio, rente ao muro. Caminhava muito direito, como se todo o corpo estivesse erguido na pergunta. Com a cabeça levantada, olhava o céu. Mas o céu eram planícies e planícies de silêncio.

Tudo isto se passou num momento e, por isso, eu, que me lembro nitidamente do fato do homem, da sua cara, do seu olhar e dos seus gestos, não consigo rever com clareza o que se passou dentro de mim. Foi como se tivesse ficado vazia olhando o homem.

A multidão não parava de passar. Era o centro do centro da cidade. O homem estava sozinho, sozinho. Rios de gente passavam sem o ver.

Só eu tinha parado, mas inutilmente. O homem não me olhava. Quis fazer alguma coisa, mas não sabia o quê. Era como se a sua solidão estivesse para além de todos os meus gestos, como se ela o envolvesse e o separasse de mim e fosse tarde de mais para qualquer palavra e já nada tivesse remédio. Era como se eu tivesse as mãos atadas. Assim às vezes nos sonhos queremos agir e não podemos.

O homem caminhava muito devagar. Eu estava parada no meio do passeio, contra o sentido da multidão.

Sentia a cidade empurrar-me e separar-me do homem. Ninguém o via caminhando lentamente, tão lentamente, com a cabeça erguida e com uma criança nos braços rente ao muro de pedra fria.

Agora eu penso no que podia ter feito. Era preciso ter decidido depressa. Mas eu tinha a alma e as mãos pesadas de indecisão. Não via bem. Só sabia hesitar e duvidar. Por isso estava ali parada, impotente, no meio do passeio. A cidade empurrava-me e um relógio bateu horas.

Lembrei-me de que tinha alguém à minha espera e que estava atrasada. As pessoas que não viam o homem começavam a ver-me a mim. Era impossível continuar parada.

Então, como o nadador que é apanhado numa corrente desiste de lutar e se deixa ir com a água, assim eu deixei de me opor ao movimento da cidade e me deixei levar pela onda de gente para longe do homem.

Mas enquanto seguia no passeio rodeada de ombros e cabeças, a imagem do homem continuava suspensa nos meus olhos. E nasceu em mim a sensação confusa de que nele havia alguma coisa ou alguém que eu reconhecia.

Rapidamente evoquei todos os lugares onde eu tinha vívido. Desenrolei para trás o filme do tempo. As imagens passaram oscilantes, um pouco trémulas e rápidas. Mas não encontrei nada. E tentei reunir e rever todas as memórias de quadros, de livros, de fotografias. Mas a imagem do homem continuava sozinha: a cabeça levantada que olhava o céu com uma expressão de infinita solidão, de abandono e de pergunta.

E do fundo da memória, trazidas pela imagem, muito devagar, uma por uma, inconfundíveis, apareceram as palavras:

- Pai, Pai, por que me abandonaste?

Então compreendi por que é que o homem que eu deixara para trás não era um estranho. A sua imagem era exactamente igual à outra imagem que se formara no meu espírito quando eu li:

- Pai, Pai, por que me abandonaste?

Era aquela a posição da cabeça, era aquele o olhar, era aquele o sofrimento, era aquele o abandono, aquela a solidão.

Para além da dureza e das traições dos homens, para além da agonia da carne, começa a prova do último suplício: o silêncio de Deus.

E os céus parecem desertos e vazios sobre as cidades escuras.

Voltei para trás. Subi contra a corrente o rio da multidão. Temi tê-lo perdido. Havia gente, gente, ombros, cabeças, ombros. Mas de repente vi-o.

Tinha parado, mas continuava a segurar a criança e a olhar o céu.

Corri, empurrando quase as pessoas. Estava já a dois passos dele. Mas nesse momento, exactamente, o homem caiu no chão. Da sua boca corria um rio de sangue e nos seus olhos havia ainda a mesma expressão de infinita paciência.

A criança caíra com ele e chorava no meio do passeio, escondendo a cara na saia do seu vestido manchado de sangue.

Então a multidão parou e formou um círculo à volta do homem. Ombros mais fortes do que os meus empurram-me para trás. Eu estava do lado de fora do círculo. Tentei atravessá-lo, mas não consegui. As pessoas apertadas umas contra as outras eram como um único corpo fechado. À minha frente estavam homens mais altos do que eu que me impediam de ver. Quis espreitar, pedi licença, tentei empurrar, mas ninguém me deixou passar. Ouvi lamentações, ordens, apitos. Depois veio uma ambulância. Quando o círculo se abriu, o homem e a criança tinham desaparecido.

Então a multidão dispersou-se e eu fiquei no meio do passeio, caminhando para a frente, levada pelo movimento da cidade.

Muitos anos passaram. O homem certamente morreu. Mas continua ao nosso lado. Pelas ruas.

(Sophia de Mello Breyner Andresen, in Contos Exemplares)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Não sei...

"Eu não sei se vais ouvir-me
Se estás ai ou não
Eu não sei se compreendes
Esta oração

Se eu para ti sou uma estranha
Que o coração perdeu
É ao ver-te que eu pergunto
Se já foste como eu


Longe do mundo, perto de ti
Peço conforto de quem eu fugi
Perdida, esquecida eu oro a ti
Longe do mundo mas perto de ti

Peço conforto e nada mais
Na voz dos que sofrem padecem sinais
Vêm de longe e chegam por fim
Quem vai ouvi-los? quem sofre assim?

Eu não sei se vais lembrar-te
De um coração tão só
Coração tão vagabundo
Que perde, chora, todos os dias

Longe do mundo mas perto de ti
Peço conforto de quem eu fugi
Venho de longe e chego por fim
Quem vai ouvir-me chama assim
Perdida, esquecida, aqui ao orar
Longe do mundo mas perto de ti..."

"Longe do Mundo"

Sara Tavares


quinta-feira, 8 de outubro de 2009

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Voo leve...

Sete meses passaram... Já viste como tudo está mais leve? Até tu pareces estar mais leve, solto como o vento, apaixonado...sinto-te bem.
Há sete meses voas-te...
És agora a brisa de alegria e leveza que percorre as nossas vidas. Cada vez mais sinto a tua falta...feiticeiro e sábio. Só tu me fizeste apaixonar pela vida, por cada bocado de sentimentos que possuímos e nos é dado. Fizeste-me apaixonar pelo Homem, pela sua essência, paixão, loucura, sentimento, ou o vazio que têm e buscam preencher de diferentes e curiosas formas.
Enfeitiçaste-me pela vida...por ti...por nós...por quem nos rodeia...por o que nos envolve...por mim (talvez). Anjo!

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Let's Go! All together...


Como irmãos compartilhamos momentos e sentimentos, inconfundíveis e únicos...infinitos olhares, sorrisos, músicas, risos e lágrimas. Momentos especiais de cumplicidade, entrega, dúvida, alegria, reflexão e fé!
Agora de regresso ao mundo já conhecido e habitual a alma não se encontra guardada dentro de mim, mas sim com quem partilhei todos os momentos de fraternidade e família. A alma vagueia, vive em cada um, vive em Deus. Já não consigo ignorar e libertar-me.
Ele vive em mim e em todos.

Obrigada por todos os momentos de total felicidade e amor. Não irei mais caminhar só, Tu estás!

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Atulambadas =)



Nós, momentos que passamos, momentos que ficam.
Nova fase nos espera...mas com esperança e alegria aguardamos
Voces ficam..para sempre vamos ficar!

terça-feira, 9 de junho de 2009

SoRir

A tua presença mantém-se, sinto-te sempre comigo, de uma maneira única e especial. Agora aqui sentada com o mar no horizonte, sinto a brisa das tuas asas sobre mim, alegria e paz descem sobre mim.
As nossas conversas especiais continuam, não foram com o tempo. Conto-te os meus pensamentos e momentos, ouves-me, vejo-te ainda a sorrir para mim com um sorriso de menino só teu, os teus olhos brilhantes e alegres penetram os meus.
Quando acabo de contar os meus disparates rimo-nos como sempre, sem conseguir parar... O teu riso angelical e puro fica dentro de mim, é a minha força e a minha luz!

terça-feira, 5 de maio de 2009

domingo, 26 de abril de 2009

Cavalos




O espírito move homens e animais de uma forma mágica e sem porquês.

P.S - Romaria de inúmeros cavalos com a Nossa Senhora de Aires

quinta-feira, 12 de março de 2009

Bater de asas



Acordo agora numa nova realidade, existe uma ausência que diariamente se impõe na minha realidade. Olho para o meu mundo, a tua ausência torna-o maior e mais despido. Despido de amor, amizade, sentimentos, conversas e cumplicidade. Nesta nudez é o eco que me responde quando volto a projectar a minha voz na busca da tua que agora só vive na minha memória de ti. Onde estão os nossos diálogos? Onde ficaram os nossos minutos, aqueles em que tudo dizíamos e púnhamos a conversa em dia, ou aqueles nossos silêncios, parávamos a observar o mundo na sua constante agitação, mas nós nada dizíamos, tudo pensava-mos e naquele silêncio de palavras muita coisa era dita e sentida.
Prossigo a minha vida, como tu de certeza desejas, mas tu não vais com o tempo, trago-te comigo. És tu que estás bem presente quando abro os olhos todas as manhãs, quando bebo o meu café e troco bons momentos com amigas, és tu que estás comigo quando estou a trabalhar, algo com que estavas sempre preocupado, na tua apaixonada e cómica ânsia de que estivesse a gostar e a sentir-me feliz. À noite quando regresso ao mundo que pertences-te, ainda aqui estás, a olhar para mim como mais ninguém o sabia fazer. Olhares nossos.
Olho para ti e sorrimos como se tivéssemos trocado um segredo. É com esse sorriso que todas as noites volto a dormir, contigo no meu coração. Fecho os olhos e tu ali ficas, à minha cabeceira, a admirar-me e abençoar-me, desejas-me bons sonhos, pois tu vais ficar para me proteger dos pesadelos. Meu anjo da guarda, agora descanso deitada nas tuas macias asas.

terça-feira, 10 de março de 2009

Partida


Hoje vi-te partir, sem tempo para porquês. Foste e eu fiquei a ver-te partir, deixando correr as lágrimas de tristeza e saudade. Agora que foste só me resta recordar-te como eras, como éramos. Cada momento ficou como se fosse hoje vivido. Recordo-te com todo o amor e saudade, as nossas conversas, brincadeiras, sorrisos, preocupações, desabafos, a totalidade de cumplicidade presente.
Continuas comigo, bem dentro do meu coração, revejo-te como eras, a tua presença calma e reconfortante, o teu sorriso tímido mas contagiante, o teu olhar de eterno menino, brilhantes e sonhadores. Teu coração baú do mundo, onde gostavas de acolher humildemente todas as almas, baú onde refugiavas teus pensamentos de permanente aventura. É nesse teu grande baú de amor que eu encontrava a paz, o amor, a compreensão, a tolerância, a escuta muitas vezes sem porquês.
Deixas-te pequenos grandes pedaços da tua alma, amor e pensamentos...ainda hoje, quando a noite chega é no meio do céu negro e estrelas brilhantes é a tua voz que me embala, a chamar por mim...
Não sei de onde chamas por mim, mas acredito que estás no melhor local imaginário, onde todos os anjos da guarda descansam e preparam-se para cuidar e embalar as pessoas que mais amam.
Anjo da guarda eterno.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Paraíso



De olhos fechados no agora…sinto uma brisa fresca a tocar a minha face. De muitos locais onde já estive durante a minha vida este é diferente, o que chega até mim é uma brisa reconfortante, embaladora fazendo-me lembrar os braços protectores da minha mãe, onde era refugiada e adormecida. Esta brisa trás ainda mais recordações dessa pessoa, pois esta brisa faz-se soar nos meus ouvidos. Este som é uma harmonia, tocada por inúmeros instrumentos de uma orquestra afinada e harmoniosa, era assim que os meus ouvidos escutavam a melhor harmonia terrena…o mar. Uma imensidão tão grande num planeta tão pequeno, tanta transparência mas com tanta vida oculta, tanta calma mas personalidade marcada. É esta a acalmia e a melodia celestial e harmoniosa que me chega.

O conforto e a harmonia invadem o meu interior, sinto-me a ser levada para outro local, talvez outra dimensão…a leveza reina em mim, o “nada” bem presente como se nada mais existisse se não eu e a imensidão do tempo, sem passado, presente ou mesmo futuro. Este estado é familiar, já fora sentido por mim, onde nada mais existia…o meu quarto. Espaço pequeno mas gigante. Sim, é ele o meu mundo, marcado com pequenos pedaços de mim. Paredes silenciosas mas não vazias, guardadoras de segredos, testemunhas de acontecimentos tão normais mas ao mesmo tempo especiais e pessoais. Ali era levada para a minha dimensão, onde eu era eu, pensamentos meus, sentimentos meus, dúvidas minhas, mas um pouco de tudo de todos. O mundo ficava lá fora mas as pessoas vinham comigo, eram elas que também faziam o meu mundo. O meu pequeno e enorme mundo.

Mas neste momento não é o cheiro de incenso, dos meus perfumes e dos pensamentos que está no ar. Ao meu nariz chega outro aroma bem diferente, chegou vindo pela brisa. É um aroma fresco, fino, suave mas mesmo assim definido, trás consigo um travo salgado. Este cheiro salgado faz-me despertar, querer despertar para o momento.

Abro os olhos e há uma conjugação de azuis, pequenos amontoados de branco que se vão mexendo como se quisessem vir em meu encontro, tocar e envolver suavemente. Volto a observar o que a minha volta está presente. Do alto vem uma luz branca, mas não é fácil olhar, parece querer estar ali mas manter-se numa nuvem envolvente de mistério.

Agora com os olhos mais afeitos ao que observam, olho para mim mesma. O meu corpo está agora coberto por uma túnica branca, agora com as minhas pernas cruzadas, os braços caídos sobre elas. Não estou no “nada” como me sentia, estou sentada sobre um aglomerado de pequenos grãos castanhos, deixo-os assentar na palma da minha mão, escorregam entre os dedos, é areia. Elemento bem importante e familiar, onde muitas vezes me deitei com o objectivo de nada fazer, só deixar o tempo passar, onde deixei o meu corpo ser coberto por estes grãos, onde uma pequena criança chegou a sonhar e construir castelos, muralhas, numa tentativa de dar forma aos pequenos pedaços…

Agora encontrei-me…eu, o horizonte, o mar, o céu, o sol, a praia, as ondas, o cheiro à maresia, os grãos de areia, os raios de sol… Saboreio este paraíso oferecido…onde o paladar, o verdadeiro, é sentir-me eu, ali nada mais existe.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Fragmentos gigantes de tempo


Tantas coisas já foram levadas pelo vento do tempo....
Sorrisos, gargalhadas, lágrimas
Sonhos, desilusões
Realidade
Cumplicidade, desencontro

Foram mais de 365 dias de pura amizade...sem nunca a palavra voltar fazer parte do querer...
Obrigada!! (pouco para tanto)